terça-feira, 24 de junho de 2025

Muito menino


Quando eu era muito


menino,


sabia quase tudo:


que o dia viria


depois da noite,


que viver era


seguir os adultos


com os olhos.




Mas 


suava noites a frio


pensando que deveria ser mais 


que aquilo


viver.




Na sala,


a rotina escorria:


televisão, escola,


jantares, 


lição antes de 


brincar e dormir.


Domingo morria


na hora da missa.




E se a vida


era aquilo,


repetir os mais velhos,


por que chamavam isso


de futuro?




Eu deveria perguntar 


a deus


mas a pergunta


era a dúvida sozinha.




E me perguntava se


havia mesmo 


um deus piedoso


e se havia mesmo


um deus.




Então, comecei a pensar


como se ninguém


tivesse pensado antes:


e se não houvesse nada?


Se nem eu existisse?


Se nem o pensamento


de eu existir


existisse?




Foi numa dessas noites


em que o corpo perde saliva


de tanto silêncio,


que percebi:


se houvesse Deus,


ele me interromperia.


Ele saberia de tudo


ele não permitiria.


E se permitisse, não seria.




Peguei a faca.


Não para morrer,


mas para convidá-lo.


Que viesse —


a cena era sua.




Mas não veio.


O corredor seguiu intacto,


os quartos dormiam.


Lá em casa,


só eu sabia.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Muito pouquinho

Corríamos e ríamos fartando-nos de chuva na volta para casa

- entre ruas e rios, a cidade subitamente se transformara
  
Antes disso, caminhávamos inventando de improviso o rumo e canções


Ele tinha três anos e já sabia tirar os chinelos para correr 

                                                                        e me chamava papai

                                                                                                  e ria

Depois, já em casa, aconchegado pelo banho quente do chuveiro

sozinho, onde a varanda era um barco

                              mirando o tempo

ele criou sua primeira canção só dele: 

"Pode chover, muito pouquinho

Pode 

       chover, 

                muito 

 pouquinho." 

quinta-feira, 24 de abril de 2025

1- O carro: quando a gente entra no sapato.


                         ..


2- Não engulo sapo, mas puseram-me um na barriga. Cuspi seu troço na pia. Sujei as mãos na papa da baba do sapo. Não devolverei o feitiço que nos liga, nem furarei os olhos no corpo mágico. Sapo que morra de fome, pedra expelida na merda. A vingança é solene silêncio, sem vigília.


..


3- Que Pasárgada?! tudo tão bonito... Itchycoo Park salva!


                                                                        24 de abril de 14

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

presilha


Perdi-me quando me mutilaste.

a.mor: eu, osso de outro.

 

Sen

  ti.

 

Objetos marcam tua ausência

numa paisagem inacabada.

 

Atrás da foto arrancada do mural,

uma letra vermelha: carinho.

Na gaveta, um bilhete entre roupas,

no escritório, cadernos abertos,

no varal, uma camiseta esquecida.

A presilha favorita,

sobre a pia do banheiro.

 

As plantas murcham por educação.

 

Casa sem ti

Tanto vão

Mas tu, ainda.

 

Fui-te escondendo, encaixotando—

fundos de armários,

cantos cegos.

Lugares onde nem se pensa,

nem se velam os rastros,

nem se lembra por acaso.

 

Fecho a porta devagar,

como quem guarda uma infância—

com o cuidado

do nunca mais.


sábado, 6 de agosto de 2022

Achados e perdidos (lost in paradise)

No princípio, o verbo

 

No princípio era o verbo –

e tu me amaste.

E eu te amei.

 

Morder uma carne

que não sangra

não me preenche o vazio.

 

O seu fruto me fez frio.

 

Procurei caminhos.

 

Errei.

 

[erramos]

 

Confundimos os planos

de Deus –

 

aquele que nos livrou do nada

e nos encheu

de fome.


terça-feira, 23 de março de 2021

.

Seríamos como formigas,
ocupados de dia
— corpos miúdos em mecânica paz —

mas não somos formigas.
E nos e s m a g a m o s 
                [por repetir]

e a chuva invade o país:

a raiz que se enovela no hálito da terra,
a folha que despenca antes de abril
perto, um pássaro 
                       rasga 
                o silêncio

a palavra calada
(persistirá, sempre, antes e depois).

Então,
quando o centro nos expelir
frutos de primaveras mal paridas,
longe da terra que nos fez companhia
seremos outra vez
 — indivíduos desgarrados  —

só

nós


dois.
                                                             junho de 2012

terça-feira, 14 de agosto de 2018

sem terras marcham  
até Brasília

gente emocionada  
faz greve de fome  

nosso povo  
murcha de sombra
e silêncio 

homem da paz  
vem de longe  
denunciar  

do silêncio da torre,  
uma voz se agita  
no maior jornal do mundo  

a rainha  
retira o bispo.