terça-feira, 3 de março de 2026

Arquibancadas vazias.

Uma câmera aprende a voar

para seguir o chute

de Juninho Pernambucano.


A bola sobe

e já não é bola:

varia —

folha seca

em desacordo com o ar.


Depois, borboleta.

Depois, ave.


Meus olhos vão.

Eu voo.

A paisagem se oferece.


Bento Ferreira se ergue em andaimes:

prédios futuros

ensaiam cobrir a pedra

que ainda pensa.


A ave sobe mais.

Meu corpo pesa,

mas não cai.


Voar é aprender

a sair do chão.


Antes do excesso,

a ave pousa

na janela mais alta.


Do lado de dentro,

meu filho brinca.


Atravesso.

O mundo me devolve

ao nome que sustenta o corpo no chão:


pai.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O Ofício no Limiar


Essa noite, visitei o avesso de uma praia.

No verdume líquido, um homem rompia as ondas —
inteiro, um corpo sem linha de corte.

Retornava, contido, abraçado a uma fartura
e a depunha, prateada, sobre a brancura crua
de um lençol na areia.

Quando o mar o chamou de volta,
reconheci-o: era a mão fundadora de meu pai.
Entrava nas águas sem rede, sem artefato —
apenas ele:
o corpo como âncora e como cova
de onde a vida vinha.

O cardume, em seu colo, rendia a insônia do oceano.
Dormiam, sossegados, os peixes
na paz do músculo.

Em roda, os homens apertavam o pano de linho,
louvando a graça selvagem do pescador.
Os curiosos, com a avidez do mundo:
“Posso levar a prata viva do xaréu?”
“Posso ficar com a moeda do robalo?”

Minha mãe se fez presente —
o olhar, um juízo.
E nós dois, testemunhas de que o antigo ofício,
a técnica do sonho,
estava enfim reconhecido.

Meu pai, generoso e exausto, acenava.
Deixava que a virtude o esvaziasse de matéria,
levada por mãos humanas como nós,
anônimas e famintas.

Sobrou o miúdo, o despercebido.
Minha mãe o recolheu no cesto de palha:
“O que resta é para nós.”

Meu pai voltou ao útero salgado,
prometendo outro milagre.
Desta vez, fui atrás —
não para ver,
mas para me molhar na ciência.

A luz da praia começou a se desfazer,
e eu lutei contra a morte impiedosa do acordar.
Já domino o olhar que admira.
Resta descer no corpo para aprender o mar.


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Essa noite visitei uma praia diferente.

No mar, um homem enfrentava as ondas

de corpo inteiro —

e saía abraçado a muitos peixes,

que deixava sobre um grande lençol

estendido na areia.


Quando voltou ao mar,

o pescador era meu pai.

Entrava nas águas de novo,

abraçado aos peixes,

tirando-os do mar com o próprio corpo,

e nada mais.


Os peixes sossegavam

nos braços do meu pai.


Pessoas se juntavam em volta do pano 

para ver o bom trabalho do pescador:

peixes que, em seu colo, dormiam.


Os curiosos começaram a pedir:

“Posso levar o xaréu?”

“Posso ficar com o robalo?”


Minha mãe se aproximou

e apenas olhou.

Ela e eu estávamos contentes —

a técnica e o ofício do velho

enfim reconhecidos.


Meu pai, generoso,

deixava que todos levassem a pesca:

mais uma virtude

louvada por todos.


Sobraram apenas os pequenos,

que minha mãe pôs no cesto:

“Até que dá pra nós.”


Meu pai voltou ao mar,

disse que pegaria mais.

Dessa vez fui atrás —

queria aprender.


A praia começou a se apagar.

Lutei para não acordar.


Já sei admirar.

Resta aprender.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Este homem

 

Este homem
Já não tem casa

Do homem de antes
Ficou a casca
No chão

O homem que veio
Fluiu -
Sem vão

Foi à rua:
Ruiu

O homem inteiro
Partiu

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Das moscas


[1ª parte: Transfiguração]

 

                                                      à divindade

                              ascender

Experimentar

                              

no alto   

de minhas                          

asas

translúcidas                                   

 

para além

do humano —       

                                      vir-a-ser

                                           potência                        

 

até que                              esta carne                          traidora,              

este casulo                                                         de vísceras           

 não acompanha                                                  a vertigem

                                          da viagem

            

                                               

 

                                             quedo             

                                    



                                            monstro

                                               uma variável     

a mais —       

talvez a menos —

 

                             se saber   

                                 o que me trouxe      

                                                               aqui 

                                    trouxesse     

                 de volta         

o que perdi...

 

[2ª parte: Lembrança]

Luto  por lembrar      

o nome das

coisas                               

de quando            

ainda     

sabia ser

humano  

 

mas só me resta                      

 

este corpo              

                    

inchado,      

sem mapa —

o sangue da onça que matei       

                      correndo em rios     

                                                  que já não reconheço.

 

[3ª parte: Epílogo entomológico]

Uma mosca de     

       84kg                                   

expele

um vômito ácido

que corrói seu braço         

em poucos minutos

                            por isso       

mais respeito  

com todos os insetos,                                                                               bicho.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Três haicais e um grilo




Grilo na paisagem

seu riso ressoa

por toda a viagem



Grilo na estrada

lembro o carro de meu pai

é o tempo que cai



Grilo no caminho

o mesmo grito indo

contínuo.





quarta-feira, 23 de julho de 2025

Eu não te beijei, Gabriela


Eu não te beijei

na rua em frente ao prédio,

jogando vôlei na chuva — só nós dois —

enquanto os outros correram para dentro,

com medo de se molhar.

 

Não te beijei na piscina do Hotel dos Pinhos,

quando você queria que aquilo fosse

nossa lua de mel.

Mas que lua de mel, Gabriela?

Viajávamos com os pais da Letícia.

Lá em casa, o aviso:

“não fiquem a sós.”

Qual era o tamanho do risco?

 

Não te beijei no cinema,

naquele filme bobo do casal que ganhava na loteria

e perdia o amor.

A gente nem entendia de dinheiro.

Nem idade tinha pra entrar naquela sessão.


Não te beijei na escola —

teu nome bordado nos meus cadernos

feito quem marca o que já é seu.

Te vi como mulher,

e eles,

alguém levando pela mão

um menino assustado.

O que você viu naquele rascunho de gente?

Você tinha um poder enorme sobre mim —

só não sabia como me beijar.

E eu não sabia se sua presença me protegia

ou me predava.

Em meio a tantas declarações,

eu temia os seus segredos.

 

Não te beijei no pique,

nem no gato-mia,

nem no esconde-esconde —

onde quem não saía da sombra,

quem nunca se revelava,

era eu.

Mas como eu desejava

um lugar secreto só pra nós dois,

uma vontade enorme de deixar o corpo queimar.

 

Não te beijei no parque,

quando você me ofereceu sua maçã,

encostou o nariz na minha bochecha,

e sussurrou: deixa.

E eu recusei

a maçã, o beijo, o seu nariz —

por vergonha.

Olhos velavam sobre o meu corpo.

 

Quase te beijei

no banco da praça do bairro,

com as folhas das castanheiras caindo entre nós —

um ano, outro ano, mais um.

Três férias de janeiro

em que você queria ser minha namorada.

No último verão, eu já pensava:

por que a gente ainda não se beijou?

Mas eu não podia admitir

que você me ensinava mais do que meus pais.

 

Não te beijei na rodoviária,

quando você se mudou pra Araraquara.

A gente se olhou como se o mundo fosse sumir —

e sumimos.

 

Seu hálito fresco,

temperado por tomilho e halls preto,

gengivas bem escovadas,

língua vermelha —

o gosto do nosso não-beijo

ficou por muitos anos na minha boca.

 

E quando beijei,

não era assim.

Não era Gabriela.

Eu mesmo era outro.