Grilo na paisagem
seu riso ressoa
por toda a viagem
Grilo na estrada
lembro o carro de meu pai
é o tempo que cai
Grilo no caminho
o mesmo grito indo
contínuo.
Grilo na paisagem
seu riso ressoa
por toda a viagem
Grilo na estrada
lembro o carro de meu pai
é o tempo que cai
Grilo no caminho
o mesmo grito indo
contínuo.
Eu não te beijei
na rua em frente ao prédio,
jogando vôlei na chuva — só nós dois —
enquanto os outros correram para
dentro,
com medo de se molhar.
Não te beijei na piscina do Hotel dos
Pinhos,
quando você queria que aquilo fosse
nossa lua de mel.
Mas que lua de mel, Gabriela?
Viajávamos com os pais da Letícia.
Lá em casa, o aviso:
“não fiquem a sós.”
Qual era o tamanho do risco?
Não te beijei no cinema,
naquele filme bobo do casal que ganhava
na loteria
e perdia o amor.
A gente nem entendia de dinheiro.
Nem idade tinha pra entrar naquela
sessão.
Não te beijei na escola —
teu nome bordado nos meus cadernos
feito quem marca o que já é seu.
Te vi como mulher,
e eles,
alguém levando pela mão
um menino assustado.
O que você viu naquele rascunho de
gente?
Você tinha um poder enorme sobre mim —
só não sabia como me beijar.
E eu não sabia se sua presença me
protegia
ou me predava.
Em meio a tantas declarações,
eu temia os seus segredos.
Não te beijei no pique,
nem no gato-mia,
nem no esconde-esconde —
onde quem não saía da sombra,
quem nunca se revelava,
era eu.
Mas como eu desejava
um lugar secreto só pra nós dois,
uma vontade enorme de deixar o corpo
queimar.
Não te beijei no parque,
quando você me ofereceu sua maçã,
encostou o nariz na minha bochecha,
e sussurrou: deixa.
E eu recusei
a maçã, o beijo, o seu nariz —
por vergonha.
Olhos velavam sobre o meu corpo.
Quase te beijei
no banco da praça do bairro,
com as folhas das castanheiras caindo
entre nós —
um ano, outro ano, mais um.
Três férias de janeiro
em que você queria ser minha namorada.
No último verão, eu já pensava:
por que a gente ainda não se beijou?
Mas eu não podia admitir
que você me ensinava mais do que meus
pais.
Não te beijei na rodoviária,
quando você se mudou pra Araraquara.
A gente se olhou como se o mundo fosse
sumir —
e sumimos.
Seu hálito fresco,
temperado por tomilho e halls preto,
gengivas bem escovadas,
língua vermelha —
o gosto do nosso não-beijo
ficou por muitos anos na minha boca.
E quando beijei,
não era assim.
Não era Gabriela.
Eu mesmo era outro.
Em 1996,
o parque industrial respirava ferrugem
— pulmão mofado
soprando desemprego
e estilhaços de vidro
das fábricas caladas.
O Estado, assediado por
mãos invisíveis, lavado nas
águas estrangeiras do mercado
ia sendo às pressas desmembrado:
espinha, carne, tronco;
décimo-terceiro, tickets,
promessas de aposentadoria.
Meus pais martelavam teclados
no banco estadual,
seus tendões desfiando-se
em códigos e planilhas —
números que virariam
epitáfios em arquivos mortos.
Na sala do RH,
entravam homens inteiros,
saíam restos de gente.
"Reestruturação" — a faca,
"eficiência" — o prato
vazio,
e nós, a carne sem osso
que o sistema cuspia
com um sorriso de balconista.
Cai por terra a meritocracia
cultivada na crença, nos
gestos e palavras paternas.
A política bombardeou minha infância:
um ouvido colado
no choro dos adultos.
Logo, aprendemos a dobrar-nos,
a engolir o ar como pão,
a chamar de "contenção"
o desejo engasgado.
“É amor, não é?”
perguntou o médico de
riso besta.
Eu tinha doze.
Era o mundo
o que doía —
um osso cravado
entre grito e palavra.
Os jornais falavam em
"progresso",
em "ondas modernizantes",
o ranger de portas fechadas —
sinfonias para ouvidos
de tecnocratas e suas investidas.
Nossos corpos
contavam histórias
de alianças perdidas:
sindicatos virados trapos,
colegas virados números,
e a carteira de trabalho
— um álbum de retratos
com os nomes apagados.
Fomos aprendendo:
primeiro, a segurar os que caíam;
depois, a virar o rosto;
até que um dia
— quando o banco virou
sigla estrangeira —
assimilamos o novo idioma:
tecnologia tão fria
que somente o vazio
respondia.
Quando eu era muito
menino,
sabia quase tudo:
que o dia viria
depois da noite,
que viver era
seguir os adultos
com os olhos.
Mas
suava noites a frio
pensando que deveria ser mais
que aquilo
viver.
Na sala,
a rotina escorria:
televisão, escola,
jantares,
lição antes de
brincar e dormir.
Domingo morria
na hora da missa.
E se a vida
era aquilo,
repetir os mais velhos,
por que chamavam isso
de futuro?
Eu deveria perguntar
a deus
mas a pergunta
era a dúvida sozinha.
E me perguntava se
havia mesmo
um deus piedoso
e se havia mesmo
um deus.
Então, comecei a pensar
como se ninguém
tivesse pensado antes:
e se não houvesse nada?
Se nem eu existisse?
Se nem o pensamento
de eu existir
existisse?
Foi numa dessas noites
em que o corpo perde saliva
de tanto silêncio,
que percebi:
se houvesse Deus,
ele me interromperia.
Ele saberia de tudo
ele não permitiria.
E se permitisse, não seria.
Peguei a faca.
Não para morrer,
mas para convidá-lo.
Que viesse —
a cena era sua.
Mas não veio.
O corredor seguiu intacto,
os quartos dormiam.
Lá em casa,
só eu sabia.
Corríamos e ríamos fartando-nos de chuva na volta para casa
- entre ruas e rios, a cidade subitamente se transformara
Antes disso, caminhávamos inventando de improviso o rumo e canções
Ele tinha três anos e já sabia tirar os chinelos para correr
e me chamava papai
e ria
Depois, já em casa, aconchegado pelo banho quente do chuveiro
sozinho, onde a varanda era um barco
mirando o tempo
ele criou sua primeira canção só dele:
"Pode chover, muito pouquinho
Pode
chover,
muito
pouquinho."
..
2- Não engulo sapo, mas puseram-me um na barriga. Cuspi seu troço na pia. Sujei as mãos na papa da baba do sapo. Não devolverei o feitiço que nos liga, nem furarei os olhos no corpo mágico. Sapo que morra de fome, pedra expelida na merda. A vingança é solene silêncio, sem vigília.
..
Perdi-me quando me mutilaste.
a.mor: eu, osso de outro.
Sen
ti.
Objetos marcam tua ausência
numa paisagem inacabada.
Atrás da foto arrancada do mural,
uma letra vermelha: carinho.
Na gaveta, um bilhete entre roupas,
no escritório, cadernos abertos,
no varal, uma camiseta esquecida.
A presilha favorita,
sobre a pia do banheiro.
As plantas murcham por educação.
Casa sem ti
Tanto vão
Mas tu, ainda.
Fui-te escondendo, encaixotando—
fundos de armários,
cantos cegos.
Lugares onde nem se pensa,
nem se velam os rastros,
nem se lembra por acaso.
Fecho a porta devagar,
como quem guarda uma infância—
com o cuidado
do nunca mais.