fêmur junkie
arranca a perna do corpo
lambe o braço do corpo
rádioporco
saindo de sua salaadormeçosoluçorecrudesço
também sei sonharsonâmbulo no
poço
azul do
desejo
[1ª parte]
Experimentar ser deus
no alto de minhas asas
translúcidas —
para além do humano,
vir-a-ser
potência divina —
até que esta carne
traidora,
este casulo de vísceras,
não acompanhe a vertigem da
viagem
e subitamente
queda
ou monstruosamente se
transforme.
Uma variável a mais, talvez
uma variável a menos —
se saber o que me trouxe
aqui
trouxesse de volta o que
perdi...
[2ª parte]
Luto por lembrar o direito
nome das coisas de quando
sabia ser humano.
Mas só me resta este corpo
inchando como porco
abatido,
o sangue da onça que matei
diluindo-se em meus rios
correntes.
[3ª parte]
Uma mosca de 84kg expele um
vômito
ácido que corrói seu braço
em poucos minutos.
Por isso,
mais respeito com todos os
insetos, bicho.
Esta noite, em uma cidade
de pedra —
feita de becos, escadarias,
copas e muros —
reunirão-se os gatos
a fim de conservarem sua
humanidade
praticando.por
isso,
mais respeito com todos os
insetos, bicho.
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esta noite, em uma cidade
de pedra
feita de becos, escadarias,
copas e muros
reunirão-se os gatos
a fim de conservarem sua
humanidade
praticando.
As águas e o espelho
O espelho, não.
Não esta lâmina civilizada,
este ângulo reto que amputa o tempo,
esta prisão onde penduro
quadros que não sangram.
Agarro seu dorso liso —
mãos que tateiam
o que já sabem encontrar —
e resisto.
Um espelho não deve cair:
imagens se cruzam em
seus pedaços.
Até que a pedra em meus olhos
aceite o fogo que a desafia,
e meu corpo, enfim,
desate-se em rio
que ignora margens.
Não quero a estátua
que o espelho cultiva.
Quero o poço onde
um peixe salta,
uma flor desabrocha,
um narciso se entrega.
Água viva
que devora
meu reflexo.
agarrá-la pelos cabelos
e, largando o corpo aos poucos nesse rio disssolver-se mais lento que o tempo geral mas sempre indo contínuo